Escreva algo que valha a pena ler ou faça algo acerca do qual valha a pena escrever.

Dito Popular

O Canto do Escritor

Cláudia Portela

Sua infância foi marcada pela simplicidade e pelos sonhos. Passava boa parte do tempo com a avó materna, Maria, que não gozava de boa saúde e sempre gostava de tê-la como companhia. Foi na casinha dela que teve memórias afetivas inesquecíveis, inclusive um poema inspirado no quintal da casa chamado Quintais da Infância, que já foi publicado na antologia Poesia de Botão, pela Editora Verlidelas, cujos poemas versam sobre a infância.

Filha de Mucambo, primogênita de uma família humilde, a professora Cláudia Portela ainda vive e trabalha na pequena cidade da zona norte cearense. Após passar treze anos em sala de aula lecionando Português e Inglês, o que lhe custou alguns calos vocais, Cláudia teve que reduzir o ritmo; e passou a dedicar parte do seu tempo ao sonho de infância de ser escritora. Como agente cultural na Secretaria de Cultura do município pôde desabrochar sua verve criativa, escrevendo contos, poemas e literatura de cordel.

“A LITERATURA DE CORDEL AINDA É RECENTE NA MINHA VIDA, SURGIU EM 2016, MAS FOI ATRAVÉS DELA QUE EXPRESSEI ALGUMAS MEMÓRIAS CULTURAIS DA MINHA TERRA E DO MEU SERTÃO COM QUATRO CORDÉIS PUBLICADOS E VENDIDOS AOS CONTERRÂNEOS E AOS AMANTES DESTE GÊNERO LITERÁRIO.”

Cordéis:
Mucambo em rimas rumos e memórias
Cafuné – vida e obra
Grêmio Recreativo – os ritmos e as emoções do clube da massa mucambense
A Lenda da Pedrona, sendo o último publicado na antologia UM ENCANTO DE CORDEL pela Editora Cartola.

Tinha cobra e lagartixa
Calango e embuá
Gato preto e cachorro
Do juazeiro o juá
Lá o pé dava carreira
Que perdia a estribeira
Com medo de arapuá

(Trecho de A Lenda da Pedrona)

A escritora tem participado de alguns cordéis coletivos e de alguns concursos em grupos de whatsapp. Também costuma acompanhar alguns cordelistas contemporâneos para aprender um pouco mais sobre esta arte com fortes raízes nordestinas.

“PRETENDO ESCREVER MAIS ALGUNS CORDÉIS, MAS NO MOMENTO NÃO TENHO FOCADO NESSE SEGMENTO QUE APESAR DE PARECER SIMPLES E POPULAR, REQUER DO AUTOR UM CONHECIMENTO VASTO DO ASSUNTO A SER NARRADO E A OBEDIÊNCIA ÀS REGRAS ESPECÍFICAS DE MÉTRICA, RIMA E ORAÇÃO, ALÉM DO TALENTO E SENSIBILIDADE POÉTICA. CONFESSO QUE A PROSA POÉTICA ME APAIXONA MUITO, POIS AO ESCREVER CONTOS, MINICONTOS E MEMÓRIAS, SINTO A MINHA IMAGINAÇÃO BORBULHAR.”

Assim, como a vida de muitas pessoas, a história de Cláudia é pontuada por superações, sonhos, silêncios eloquentes e principalmente pela resiliência. Apesar das dificuldades, provavelmente contaria em sua autobiografia a trajetória de uma menina diferente, cheia de responsabilidades e com a cabeça repleta de memórias vivas que hoje foram ressignificadas.

“CONTINUO ÁVIDA POR TENTAR MUDAR AS COISAS QUE MEXEM COM A MINHA INQUIETUDE. HOJE, EU CONTARIA SORRINDO AS MESMAS COISAS QUE JÁ ME FIZERAM SOFRER, COMO UMA ÁGUA QUE CAI FORTE NA NOSSA CABEÇA, MAS LOGO SE DISSIPA E ESCORRE PELOS NOSSOS PÉS. SOU INTEIRA, INQUIETA, OBSERVADORA.”

Úmidas pétalas deixaram a cor
Coladas no barro em mar de corais
Borboletas em boleros matinais

 “SEMPRE GOSTEI DE LER E ESCREVER POESIAS. USAVA SEMPRE A JANELA DA CASA DA MINHA AVÓ PARA ESCREVER FRASES E PEQUENAS POESIAS EM UM VELHO CADERNO CHEIO DE COLAGENS.”

Os pés de papoula em terra vermelha
Panelinha em fogareiro de latão
Cozinhando o almoço, o feijão

(…)

Cláudia Portela venceu dois Prêmios Selo de Escrita Criativa. No mês de abril, com o conto Solidão na Quarentena; e, em agosto, com Morangos Frescos. Em mais duas edições do concurso literário online promovido pela Editora Selo, os textos da escritora sempre estiveram entre os dez melhores.

(Trecho de Quintais da Infância)

Aos dezessete anos, quando ingressou na universidade, escrevia poesias românticas e as guardava em uma pasta escolar. Certa vez, dois colegas de sala observaram o seu “esconderijo poético” e tiveram a ousadia de pegar algumas delas e pendurá-las nas cordas das exposições poéticas do corredor do curso de Letras.

“QUANDO PASSEI NO MESMO, OBSERVEI PERPLEXA VÁRIAS PESSOAS LENDO AS MINHAS POESIAS SECRETAS. ELES INSISTIAM QUE EU TINHA INSPIRAÇÃO, MAS NA VERDADE EU NUNCA ACREDITAVA EM MIM MESMA. DEPOIS, PASSEI A ESCREVER PARÓDIAS PARA OS EVENTOS ESCOLARES E TAMBÉM ESCREVI UM LIVRINHO COM CINQUENTA POESIAS ROMÂNTICAS, QUE INFELIZMENTE, DURANTE AS MINHAS MUDANÇAS, FOI PERDIDO.”

No começo, a timidez foi um grande entrave para a escritora. Ela confessa que já foi extremamente sem jeito e devido a seu acanhamento perdeu diversas oportunidades por não conseguir encarar alguns desafios que poderiam ser bem promissores. Acredita que o tímido precisa testar os limites e perder aos poucos o medo daquilo que antes nos parecia ridículo.

“MUITOS ESCRITORES TÍMIDOS ACABAM RECUANDO, DESISTINDO DAS OPORTUNIDADES E POR NÃO SE SENTIREM SEGUROS, APENAS GUARDAM SEUS TEXTOS E LIMITAM SUAS PUBLICAÇÕES.”

A internet, claramente, tem ampliado os horizontes do mundo literário e encurtado distâncias para a troca de ideias e experiências entre os aficionados pela escrita. Sobre isso, Cláudia acredita que cada autor, de acordo com o conteúdo publicado, consegue atrair alguns seguidores assíduos que conseguem se identificar com o seu estilo de escrever.

“DURANTE MUITO TEMPO ESCONDI MEUS ESCRITOS, POIS NÃO ACREDITAVA QUE PUDESSE PASSAR A EMOÇÃO E A INTENSIDADE ATRAVÉS DA ESCRITA, MAS CONFESSO QUE A INTERNET ME AJUDOU A COLOCAR OS MEUS TEXTOS À PROVA DOS LEITORES E COM ISSO, GANHEI MAIS INCENTIVO.”

Quando a porta se abriu, viu Amália vestida em uma camisola de tule preto, estilo kimono, que evidenciava a renda trabalhada da sua lingerie. Desatou vagarosamente aquele laço e lá estavam eles, emaranhados na cama com lençol de seda, entre o cheiro afrodisíaco dos morangos frescos e da última champanhe que ela havia guardado na geladeira.

(Trecho de Morangos Frescos)

O Prêmio Selo de Escrita Criativa é uma iniciativa que promove oportunidade para os jovens (ou não tão jovens) no mercado da escrita artesanal, acaba tornando estes desafios cada vez mais atraentes, principalmente para aqueles que pretendem escrever, mas ainda se sentem inseguros em relação a sua qualidade de escrita.

“É COLOCANDO ESTES TEXTOS À PROVA, QUE O ESCRITOR ARTESANAL VAI PERDENDO O MEDO DAS CRÍTICAS NEGATIVAS, ADQUIRINDO ASSIM MATURIDADE SUFICIENTE PARA APERFEIÇOAR OS SEUS PRÓXIMOS TEXTOS E ACREDITAR NO SEU POTENCIAL LITERÁRIO.”

Cláudia tem várias ideias na cabeça e uma caneta teimosa na mão. Pretende escrever mais contos e publicá-los em formatos físico e digital. Atualmente, mantém divulgando o seu perfil Caneta Teimosa nas redes sociais e participado de diversas antologias de contos e poesias, pois além de exercitar a escrita artesanal, muitos leitores terão a oportunidade de avaliar o seu trabalho. Saiu das velhas gavetas o seu primeiro e único livro impresso em gráfica (aquele que perdeu quando ainda nem tinha um computador). Tem compilado oitenta novas poesias, algumas publicadas em redes sociais, e outras, guardadas em gavetas e, agora, também em arquivos digitais.”

“COSTUMO ME ENTREGAR AO TEXTO QUE PRETENDO ESCREVER, E TALVEZ DEVIDO A ESTA ENTREGA ABSOLUTA, ALGUMAS VEZES ME SURPREENDO COM O RESULTADO DO MEU PROCESSO CRIATIVO, QUANDO OUÇO ALGUNS FEEDBACKS POSITIVOS. MINHA CABEÇA SEMPRE FICA FERVILHANDO, IMAGINANDO SITUAÇÕES, HISTÓRIAS, E ASSIM, SEMPRE COSTUMO OBSERVAR AVIDAMENTE O COTIDIANO E O COMPORTAMENTO HUMANO.”