Por que um concurso de cartas?

Por que cargas d’água esse concurso quer que escrevamos cartas? Em plena era digital, transmitir uma mensagem com mais de 280 caracteres é desperdício. Então porque diabos cartas? Será que também vão pedir para envelopar, selar e amarrar no pé do coitado do pombo-correio?

Carta implica destinatário, endereço, CEP… não seria melhor um concurso de e-mails? De zap-zap ou de tuitada? Já pensou? O menor tuíte que dissesse alguma coisa relevante venceria o concurso. Poderia ser: Prêmio Selo de Escrita Diminutiva. Bem mais adequado para o momento presente. Também, um concurso promovido por uma editora chamada Selo, fica demasiadamente óbvio que seja um concurso de cartas.

Mas vamos lá, tudo bem, a minha relutância não faz menor sentido, afinal estamos tratando de literatura. Mas quando penso em cartas, logo me recordo das cartinhas que eu escrevia para o Papai Noel. Lá em casa era obrigatório. Caso contrário, não tinha presente de Natal. Noutra ocasião, escrevi uma carta para o jornal Correio Braziliense, para a seção “Cartas à Redação”. Dei minha opinião sobre a Guerra do Golfo e fui publicado na íntegra. Cartas de amor, cheirosas e picantes, outrora eram usuais entre namorados. Eu mesmo escrevi várias… para amores não correspondidos. Mas isso é coisa do passado.

Por falar em passado, dei uma pesquisada no Google e descobri que o modernismo brasileiro produziu excelentes obras com correspondências trocadas entre escritores. Tem o livro “Todas as Cartas”, de Clarice Lispector, tem as “Correspondências de Mário de Andrade e Tarsila do Amaral”, tem as cartas de Drummond, de Graciliano Ramos entre outros. As cartas sempre foram um forte componente de transformação na história da humanidade. Dependendo de quem a assina pode inspirar, demover ou até destruir. A carta da Imperatriz Maria Leopoldina para Dom Pedro I  é um bom exemplo.

As cortes portuguesas ordenam vossa partida imediatamente; ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado vos aconselha a ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças se partirmos agora para Lisboa”.

Dizem que a missiva da Imperatriz foi determinante para Dom Pedro soltar o famoso “grito do Ipiranga”, no dia 7 de setembro de 1822. Carta de despedida de um suicida geralmente são impactantes, triste e reveladoras. Continuando na história do Brasil me recordo da Carta-testamento de Getúlio Vargas, com um final épico!

“Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”.

Pois bem, essas cartas históricas são relatos reais, fatos que aconteceram. A maioria publicada muito tempo depois. Será que o Prêmio Selo de Escrita Criativa é patrocinado pelo wikileaks ou pelo The Intercept, e tem a pretensão de vazar informações confidenciais? Acho que não.  Se o concurso é de escrita criativa, sejamos então inventivos. Façamos, portanto, cartas-crônicas, como a “Carta De Separação À Garrafa De Uísque”,de Paulo Mendes Campos, publicada em 1953 no Diário Carioca.

“Naquele tempo em que ainda eras pura, e em que tuas exigências de dinheiro, sem nunca ser modestas, ainda não atribulavam meu orçamento, pude manter-te com decência, não faltando jamais a nossos encontros”.

Quanta autenticidade! Fiquei com vontade de escrever uma carta para minhas garrafas de vinho. Ou quem sabe redijo uma carta para o futuro. Não, não… pensando melhor, vou mandar uma carta é para o passado, alertando as pessoas do que vai acontecer. Humm… não sei se é uma boa ideia. Se acreditarem na minha história, as coisas mudam; consertam o mundo; e eu não poderei mais contar para eles o que deu errado… Sei lá… Acho que vou escrever uma carta para ninguém. Colocá-la dentro de uma garrafa e jogá-la ao mar, sem endereço, sem destinatário. É isso

“Meu caro portador,”.

4º PRÊMIO SELO DE ESCRITA CRIATIVA
4º PRÊMIO SELO DE ESCRITA CRIATIVA
INSCRIÇÕES DE 8 A 21 DE MARÇO
editoraselo.com.br/premioselo

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