Literatura não é apenas sobre livros – Parte 3

Já parou para pensar que a música só existe quando é executada? Antes de soar em notas, harmonia e melodia, ela nada mais é que um arquivo guardado. A música é uma memória adormecida em nossa mente. Guardamos tantas que nem dá para lembrar de todas! O mesmo acontece com o livro, com os filmes, com a peça de teatro ou com qualquer outra forma de manifestação artística que experenciamos. As histórias que já lemos, ouvimos ou assistimos, e as próximas que ainda vamos conhecer, só acontecem quando as botamos para fora, quando as retiramos dessa caixa e as colocamos para rodar. Enquanto isso não acontece, elas nada mais são que ideias armazenadas ou prestes a acontecer.

As experiências culturais que vamos absorvendo ao longo da vida vão moldando nosso jeito de ser e pensar. Cada pessoa tem o seu próprio arcabouço individual, e o livro tem um papel fundamental na formação desta biblioteca interna de emoções. Vamos imprimindo ideias novas nas páginas da alma, as quais vão despertar, em menor ou maior grau, em todas as interações da vida exterior. Entender e reconhecer o quanto somos inspirados por isso é o primeiro passo para fazer bom uso daquilo que lemos.

Aqueles que seguem a Bíblia, por exemplo, ou outros escritos religiosos, sabem muito bem o que é fazer uso dos ensinamentos que uma obra literária pode proporcionar. Por isso é importante saber que tipo de literatura casa melhor com o seu perfil de leitor. Se você lê de tudo, sem restrições, provavelmente é uma pessoa eclética e bem disposta a aceitar todo tipo de manifestação humana. Mas se você é o tipo de pessoa que gosta de ter livros de estimação, provavelmente é alguém bem assertivo e consciente das suas convicções.

Digo isso porque, normalmente, os livros que a gente lê, as músicas que a gente ouve e as roupas que a gente veste denunciam o tipo de pessoa que somos. Hoje em dia, com as redes sociais (a vitrine social), onde boa parte das pessoas já nem se dá ao trabalho de disfarçar suas preferências, fica fácil identificar o que fazemos e como pensamos.

Não falo isso para diminuir a importância das redes sociais, pois sei o tamanho do impacto que causam na vida contemporânea. O mesmo digo sobre a presença da IA na produção de texto e o papel das novas tecnologias na publicação e distribuição de textos digitais. Literatura não é somente sobre livros, pois ela funciona como a guardiã protetora, que acolhe e guarda todos os espectros e vertentes da existência humana. O mercado editorial pode mudar, os livros físicos podem desaparecer, mas a literatura só morre se pararmos de dialogar. Ler e escrever são atos políticos de profunda comunhão. Se um dia faltar um único livro na prateleira, não se preocupe, pois sempre haverá uma forma de sacar, da nossa biblioteca interior, o melhor exemplar para ocasião.

Fim.

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