Surfando nas ondas da inovação, com Carlos Augusto.

Tem gente que passa a carreira inteira tentando evitar problemas. Carlos Augusto Marques fez o contrário: mergulhou de cabeça em um mar de pedras. Há quase 30 anos, ele está no cruzamento entre tecnologia, governo e mudança: três coisas que raramente andam em ritmo confortável. Começou na auditoria, onde aprendeu que controle sem propósito vira burocracia. Depois migrou para a linha de frente da inovação, hoje na Microsoft, ajudando a empurrar estruturas grandes (e nem sempre ágeis) na direção do futuro.

No meio disso tudo, acumulou método, certificações, cargos e experiência suficiente para escrever um manual técnico com cara de autobiografia. Mas não foi esse o caminho que escolheu.

Em Surfando Ondas Gigantes em Mar de Pedras (Editora Selo, 2026), Carlos prefere outra abordagem: explicar como navegar no caos sem fingir que ele vai desaparecer. O livro fala de tecnologia, claro, mas fala principalmente de gente, decisão e responsabilidade. Porque, no fim, inovação não é sobre ferramenta. É sobre o que você faz quando as coisas não saem como planejado.

Fiz uma breve entrevista com o autor para saber dele como ficar de pé na prancha. 

  1. O livro foi construído sobre a metáfora do desafio de surfar ondas não muito convidativas. O que isso tem a ver com a ideia de convergência entre tecnologia e gestão pública e humanidade? 

A metáfora do surfe veio de uma constatação simples: o mar nunca está sob controle e o setor público também não. No livro, eu mostro que essa convergência entre tecnologia, gestão e humanidade acontece em um ambiente real, cheio de ondas imprevisíveis e pedras estruturais, como normas, cultura e pressão por resultados. A tecnologia é a prancha. Ela dá velocidade, permite manobra, ajuda a avançar. Mas sozinha não faz nada. A gestão pública é o equilíbrio. É o que garante que você não vai cair no meio da onda. E a humanidade… é o propósito. É o porquê de estar ali, surfando. No fim, não é sobre controlar o mar. É sobre aprender a se posicionar bem nele. 

  1. Muita gente ainda vê inovação no setor público como algo lento e burocrático. Até que ponto você percebeu que isso era mais uma falsa impressão do que realidade?

Tem um fundo de verdade… mas é uma meia-verdade. O setor público carrega regras, controles e responsabilidades que não permitem improviso, isso faz com que tudo pareça mais lento. Mas o que o livro mostra, especialmente nos momentos de crise, é que quando a necessidade aparece, a transformação acontece muito mais rápido do que a gente imagina. Na pandemia, por exemplo, processos que levariam anos foram implementados em semanas. Então talvez o ponto não seja “o setor público é lento”. O ponto é: ele responde ao contexto certo. E quando responde… acelera muito. 

  1. Olhando um pouco à frente: com a IA ganhando espaço tão rápido, o que você acredita que vai mudar primeiro no setor público — e o que, curiosamente, talvez demore mais para mudar?

O que muda primeiro é o trabalho invisível do dia a dia. A IA já está resumindo documentos, organizando informações e ajudando na tomada de decisão em segundos, algo que antes levava horas ou dias. Mas o que demora mais é aquilo que realmente sustenta a mudança:a forma como as pessoas pensam e confiam na tecnologia. Porque tecnologia você instala. Confiança… você constrói. E no setor público isso é ainda mais sensível, porque envolve ética, responsabilidade e impacto direto na vida das pessoas. 

  1. Voltando à metáfora do surfe: diante de “ondas gigantes”, o que pesa mais na sua experiência, o que mais te surpreende: a resistência das pessoas à mudança ou a capacidade delas de entender e se adaptar à novidade? E como isso aparece no dia a dia de quem lidera mudanças? 

Vou te dizer algo que me surpreendeu muito: as duas coexistem na mesma pessoa. A resistência aparece primeiro. Ela não é um problema, ela é humana. Ela vem do medo, da responsabilidade, da cultura construída ao longo de décadas. Mas quando a mudança faz sentido… algo vira. E aí aparece uma capacidade de adaptação impressionante. No dia a dia de liderança, isso muda tudo.Você deixa de “empurrar transformação” e passa a criar condições para que ela aconteça. Porque, no fundo, ninguém resiste ao que faz sentido. 

  1. Escrever um livro também foi um desafio “gigante” para organizar as ideias e se expor? O que mudou na sua forma de pensar depois de colocar sua prancha… ops! experiência no papel? 

Total. Escrever foi um tipo de “drop” diferente, porque ali não tem como voltar atrás. O livro nasceu muito mais da prática do que da teoria. Da vivência, das “ondas obrigatórias”, das decisões sem manual. E quando você coloca isso no papel, acontece algo interessante: você organiza o caos. O que mudou pra mim foi justamente isso: clareza. Experiências que estavam soltas passaram a fazer sentido. E mais do que isso: viraram algo que pode ajudar outras pessoas. 

No final, escrever não foi fechar um ciclo, foi abrir um novo. 

“O mar não vai acalmar. Mas a boa notícia é que a gente pode aprender a surfar melhor. E talvez seja isso que o livro tenta fazer: mostrar que, mesmo em um mar de pedras, ainda é possível pegar boas ondas.”

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